“entretempo” – Exposição individual de Washington Silvera – Ybakatu Espaço de Arte

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Washington Silvera volta a expor na Ybakatu Espaço de Arte depois de 3 anos. A exposição “entretempo” apresenta obras que foram feitas neste período. Um exemplo são os parafusos da série “Fábulas”, que ganharam novas aberturas plásticas. Os “Objetos Acústicos”, obras que chamaram bastante atenção do público no SP Arte 2013 e 2015 também estão presentes na mostra. Silvera apresenta ainda 3 obras inéditas em madeira, uma de suas marcas, e o público tem a oportunidade de ver a instalação “Objeto/Moldura/Mar”, uma humorada releitura das clássicas “marinhas”. No total são 10 obras que mostram o percurso recente deste talentoso artista curitibano.

De 11 de junho a 18 de setembro de 2015.
Visitação de segunda a sexta, das 10h as 12:30h e das 13:30h as 17h.
Rua Francisco Rocha, 62 Lj. 06, Batel – Curitiba / PR
Tel: +55 41 32644752 | www.ybakatu.com.br

Ybakatu Espaço de Arte, Curitiba/PR - Exposição "Entretempos", de Washington Silvera. Junho 2015Entretempo, 2015 – marchetaria e equipamentos de relógio, 40 x 40 x 10 cm.

Ybakatu Espaço de Arte, Curitiba/PR - Exposição "Entretempos", de Washington Silvera. Junho 2015Dock Ellis, 2015 – madeira de imbuia, mogno e cerejeira, 95 x 30 x 30 cm.

Ítalo Calvino, em Seis Propostas para o Próximo Milênio, faz uma observação pertinente sobre os objetos presentes nas descrições literárias: A partir do momento em que um objeto comparece numa descrição, podemos dizer que ele se carrega de uma força especial, torna-se como o pólo de um campo magnético, o nó de uma rede de correlações invisíveis. O simbolismo de um objeto pode ser mais ou menos explícito, mas existe sempre. Podemos dizer que numa narrativa um objeto é sempre um objeto mágico. (CALVINO, 1999: 47)

É claro que um objeto, numa obra literária, nunca é o objeto ele mesmo, mas algo que se define através de uma série de palavras – um objeto, digamos, lingüístico, como aliás tudo o que existe nas obras literárias. Com as artes visuais, as coisas se passam de maneira diversa, pois a obra pode tanto representar um objeto – ser uma imagem bidimensional, por exemplo, de um vaso de flores –, quanto ser o próprio objeto: foi o caso dos ready-mades de Duchamp, que inaugurou a prática, hoje amplamente aceita, de tomar objetos reais e convertê-los em obra de arte, alterando ou não as suas características. Os objetos que são tomados como obras de arte adquirem, assim, algo de mágico: eles passam a pertencer ao mundo da arte.

A obra de Washington Silvera é toda ela dedicada à elaboração destes objetos mágicos. Porém, ao contrário de Duchamp (e apesar da sua óbvia influência), Washington opera com objetos substancialmente alterados. São alterações em termos de material, dimensão, disposição espacial, construção; suas obras tomam objetos conhecidos, como mesas, raquetes, martelos, e os transformam em objetos “estranhados”: ainda que os reconheçamos como tal, há algo de substancialmente errado com eles. Destes objetos, podemos dizer: “é um serrote”, “é um martelo” − mas são coisas defeituosas, inutilizadas por aquilo mesmo que as define: o serrote serve para serrar madeira, mas ele mesmo é feito de madeira; o martelo é curvo e só pode martelar a si mesmo.

O interessante é que o procedimento de Washington faz com que o objeto seja ao mesmo tempo o próprio objeto e a sua representação: o martelo não deixa de ser um martelo, mas também é uma “escultura” de um martelo. E talvez por isso mesmo o artista não se considere um escultor. Ele é um fabricante de objetos, simplesmente; mas de objetos que são vítimas da magia: objetos enfeitiçados.

A obra de Washington persegue esse estatuto flutuante, contraditório do objeto – simultaneamente o objeto ele-mesmo e a sua representação em condições alteradas. O “objeto enfeitiçado” vive nesse lugar, entre o real e o irreal, entre o fato e a ficção: são coisas que parecem fazer parte de uma narrativa, como se fossem objetos de cena de uma série de fatos insólitos, cômicos, intrigantes. Como ferramentas, trazem a referência ao trabalho, à ação produtiva; mas, substancialmente alterados, são testemunhos de uma ação interrompida, como se víssemos um pedaço de uma história absurda que fica implícita no objeto. Na sua manipulação precisa dos materiais, na sua incorporação insólita dos elementos do cotidiano, Washington Silvera faz confundir a banalidade com o fantástico, extraindo poesia das coisas mais simples e comuns.

Fabricio Vaz Nunes

Ybakatu Espaço de Arte, Curitiba/PR - Exposição "Entretempos", de Washington Silvera. Junho 2015Boliche, 2015 – madeira e laca, 65 x 55 x 40 cm.

Ybakatu Espaço de Arte, Curitiba/PR - Exposição "Entretempos", de Washington Silvera. Junho 2015Bandolim (Série Objetos Acústicos), 2014 – Madeira e ferragens – 205 x 60 x 14 cm.

Cupim imbuia, 2014 (Série Fábulas) – escultura em madeira imbuia, 206 x 24 x 24 cm.

Ybakatu Espaço de Arte, Curitiba/PR - Exposição "Entretempos", de Washington Silvera. Junho 2015Cupim imbuia, 2014, (Série Fábulas) detalhe – escultura em madeira imbuia, 206 x 24 x 24 cm.

DSC_0500aRaquetes, 2014 – madeira e marchetaria, 100 x 70 cm.


Cupim múltiplo, 2014 (Série Fábulas) – escultura em madeira imbuia, medidas variáveis.


Objeto Moldura Mar – vídeo instalação com tv plasma e moldura, 138 x 90 x 18 cm.

Ybakatu Espaço de Arte, Curitiba/PR - Exposição "Entretempos", de Washington Silvera. Junho 20153 chances, 2014 (Série Fábulas) – madeira e resina, 120 x 8 x 8 cm.

Washington Silvera, na Ybakatu Espaço de Arte.

Fotografia: Gilson Camargo

Em 29 de junho de 2015 por Gilson Camargo

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