O Primo Basílio, de Eça de Queiroz – Direção, Fabiano Amorim

Luiz Bertazzo, em O primo Basílio - Fotografia Gilson Camargo

Para hoje teremos Eça. Eça de Queiroz.

Marcilene Moraes e Marcia Gomez em O Primo Basílio - Fotografia Gilson Camargo

Luísa: Então você ainda não arrumou o quarto? (Gritou)
Juliana: Estava agora a arrumá-lo, minha senhora. (estremecida com a cólera inesperada)
Luísa: Que estava agora vejo eu! São três horas da tarde e ainda o quarto nesse estado!
Juliana: Como a senhora costuma vir sempre mais tarde eu…….
Luísa: Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem você com isso? A sua obrigação é arrumar logo que eu me levantar. E, não querendo, rua, fazem-se-lhe as contas!
Juliana (fez-se escarlate, olhos injetados): Olha, quer saber? Não estou para te aturar!
Luísa: Saia! Saia imediatamente! Nem mais um momento nessa casa!
Juliana (com palmadas convulsivas no peito, voz rouca): Hei de sair se eu quiser! Se eu quiser!
Luísa: Joana!.Joana! Chama um homem, um policial, alguém!
Juliana (descomposta, com o punho no ar, trêmula): A senhora não me faça sair de mim! A senhora não me faça perder a cabeça! Nem todos os papéis foram para o lixo!
Luísa: Que diz você?
Juliana: Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, Tenho- as eu aqui!
Luísa (livro: Luísa olha para Juliana, um momento, com os olhos desvairados, e cai no chão, desmaiada)

Ser do diabo! Imagem da morte, maldita a hora em que puseste o pé em nossa casa! Sim, seu pé maldito, seu ódio irracional e feroz colocou-nos, a todos, sem força diante das fraquezas das opiniões formadas.

Se não tivéssemos sucumbido nosso destino seria outro. Inevitavelmente nossas peles foram arrancadas e à forca dessa exposição nos esvaímos em ódio, ressentimento e morte. Juliana matou o amor da minha vida, a mulher mais doce e linda que já existiu.

Aquela Juliana, aquela bisbilhoteira promotora da discórdia! Como não pude ver que Luísa já tomava ódio por ela, já nos primeiros dois meses de serviço? Feia e sem dignidade, afetada, antipática e eu a defendê-la como uma pobre alma de Cristo! Tudo porque cuidou de minha tia em seus últimos dias, mas esse era o trabalho dela! eu achando que estava em dívida com essa praga. A serpente infiltrada no nosso pequeno paraíso. Paraíso este maculado por Basílio, transferido para ele, o primo distante, o primeiro namorado aos dezoito anos, e eu nem sabia de sua existência….. que promessas foram ditas, quantas juras de amor não presenciadas eu perdi, quais segredos do Paraíso foram revelados?

Fotografia Gilson Camargo

Luísa: Ele chamou nosso ninho de Paraíso, mas como será que é esse lugar misterioso? Uma fazenda, uma casa de campo…?… Imagino um local onde nossa paixão encontre descanso em sonos amorosos.

Basílio é tão refinado, tão notável… Tudo tão ilegítimo e perigoso que chego a vibrar de prazer.

Seria verdade o que diziam que uma maldadezinha pode fazer a gente bonita? Luísa tem uma aventura amorosa, como nos romances…Eu estou num romance… Estou em uma peça…Tenho um amante…

Eu a estranhei tanto Luísa, sem saber o que estava acontecendo. Jorge, porque você achou que ela já estava boa e podia ouvir o teor daquela carta? Que tipo de egoísmo me levou a lançar luz sobre isso, a expor aquela carta àquele anjo frágil em recuperação, por que ?… (chora sentado) … por que? … Luísa! Luisinha, Luísa!

Fotografia Gilson Camargo

Basílio… Basílio… Sinto um estremecimento em minha alma. Sinto uma dilatação doce do orgulho e prevejo felicidades excepcionais e um alento para minha paixão impaciente. Estou pasma de mim mesma, como em tão pouco tempo ele se apossou de meu coração. Desde o dia em que li no jornal a notícia “deve chegar por estes dias a Lisboa, o senhor Basílio de Brito, bem conhecido da nossa sociedade”. Desde esse dia fui tomada por ele. A sensação de plenitude é inexplicável. Minha vida ganhou sentido e posso dizer que estou feliz.

Minha pele está mais clara, mais fresca…. eu tenho um amante. Amo esse homem tanto que até me estranho. Finalmente terei as aventuras tantas vezes lidas em romances amorosos… E posso te dizer, Basílio querido, que sempre te amei, desde aqueles passeios pueris em que apanhávamos flores escarlates e juntávamos num buquê. Como eu era tão juvenil naquela época e você tão plácido, educado e experiente. Tudo era como num sonho… Não sei como como não senti a sua falta antes.

Agora que sou tua, que te pertenço de corpo e alma, parece-me que te amo mais, se é possível… o mais espantoso é que não me sinto culpada, NÃO ME SINTO MESMO .

Foi uma fatalidade… muitas mulheres fazem isso por vício mas eu, Luísa, LUÍSA agiu por paixão. E se a base da paixão é o amor, o que se pode dizer de ruim? Ela não tem culpa. Eu o amo, e isso é certo! Certo.

Meu nome é Juliana Couceiro Tavira, filha de engomadeira e desde sempre fadada a esse universo. Na verdade eu gostaria de ser dona de meu próprio negócio, mas no decorrer da vida não consegui juntar nada além do que poucas moedas.

Minhas feições são miúdas. Meus olhos são grandes e encovados. Tenho tic nas asas do nariz. Meu trunfo físico são meus pés. Eles são lindos! São pequenos, apertados em lindas botinhas aos domingos. É a parte de meu corpo que mais gosto e trago sempre eles da forma mais atraente. Esse é meu maior vício, meu tesouro, meu orgulho, minha despesa maior. Por isso eu aperto-os, não os deixo à vontade pois eles precisam ser expostos! Quando saio ao passeio aos domingos faço questão que o vestido esteja alto o suficiente para que eles, meus pés, apareçam. Sou capaz de ficar a tarde inteira, imóvel e feliz, a mostrar meu maravilhoso pé aos domingos. Quando não posso sair, fico na janela, imóvel, no peitoril cuidadosamente forrado para não sujar minhas mangas.

Faço minha obrigação nas casas em que trabalho. Mas em relação às patroas sempre fui invejosa e isso cresceu tanto em mim que, com o tempo, tornou-se algo áspero. Quanta felicidade que elas demonstram, quantas alegrias e risadas, que para mim o maior prazer é quando isso se desfaz. Eu adoro ver toda e qualquer contrariedade e desgraça na vida delas!

Por exemplo, quando projetam um passeio e chove isso me deixa extasiada. O tédio infeliz delas me alimenta e me dá prazer nesses momentos. Quando morrem as criancinhas nâo me comovo. NÃO ME COMOVO.

E mesmo quando tenho boas patroas as odeio pelo vexame que sofri das más, afinal de contas alguém tem que pagar por isso.

Não mudo de sorte nunca, são anos a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos e isso me fez má. Faço escândalo quando me demitem, bato portas e deixo-as pálidas e nervosas…

Tenho em mim o hábito de odiar. Um ódio tolo, infantil e irracional, mas sempre o mais puro ódio. É ele que me fez virgem. Atraente apenas para os imundos. Ele que me faz andar de modo ligeiramente matreiro à busca de um segredo, de um bom segredo de uma patroa. Ah se me cai um em mãos… seria a chave de minha mudança, a chave de meu desabrochar.

Juliana dubla La Traviata

Luiz Bertazzo em O Primo Basílio - Fotografia Gilson Camargo

Jorge é robusto, de hábitos viris, não fazia noitadas e nunca fora sentimental. Sempre muito limpo e apresentável, para muitos, era tido como um mero burguês. Ele ria disso tudo pois sabia de suas qualidades. Três anos de casado, após a morte da mãe em que sentiu-se só; Luisinha, Luisinha……apaixonou-se pelos seus cabelos louros, seus olhos castanhos e sua personalidade romanesca, dadas às misturas entre realidade e fantasia. Em resumo, uma sonhadora que veio colorir a sua vida simples e asseada.

No entanto, talvez fosse isso que buscava em Luísa: a dimensão emocional, o acesso aos episódios do sentimento… Não consigo definir isso, mas minha resolução foi casar e assim Luísa, Luisinha entrou de forma simpática em minha vida. Sua alegria de passarinho promovia a beleza e limpeza do lar ao mesmo tempo que não deixava de lado as minhas necessidades de homem. Um anjo cheio de dignidade… Eu que a chamo ao jantar, que trago as provisões e pago os vestidos e o embelezamento dela e que dou conselhos paternais de amizades. Sempre fui um pai para Luísa… Minha maior tristeza secreta era não ter um filho e sonhava com aquela felicidade… Em retrospecto percebo que as sobreposições de erros meus e de todos nos trouxe até aqui. Exatamente para quê é esse reencontro de situações não se sabe. Cada um que pense o que pode ser e talvez esse pensamento em conjunto me ajude a acelerar minha caminhada que está tão lenta, tão morosa… longa, como a viagem em que deixei Luísa. A maldita viagem, a viuvez permitida, a solidão do passarinho. (suspiro)

É tão diferente do turbilhão emocional da época, é o oposto pois é a ausência da emoção. A cada episódio sinto uma aceleração, uma chance não sei de quê…. Eu acordo meia noite, sento numa cadeira e sou sacudido por soluços cansados em virtude da imagem de Luísa. Eu e todos que a amavam choram, porque não tem como não chorar. Me debato docemente diante de seu leito de morte. Eu a beijo, tomo-lhe a cabeça nas mãos e caio no profundo abismo que nos separa. O vento frio é eterno agora e lança sussurros e agitações tristes numa árvore sobre a sepultura de Luísa, a minha Luisinha, mulher que amo ontem, hoje e sempre!

Fotografia Gilson Camargo

Luísa estava num teatro imenso, dourado como uma igreja. Era uma noite de gala, com joias e condecorações faiscando sob as luzes. Era tudo tão rico que até um rei com seu glorioso manto de pedrarias estava presente. Ela estava no palco; era atriz estreante no drama de seu primo Ernestinho. Estava nervosa e via diante de si a plateia sussurrante, olhos cravados nela com furor. No palco, a decoração de uma floresta, à esquerda um carvalho antigo e protetor que muito se assemelhava ao melhor amigo de meu marido Jorge, o querido Sebastião. Mas havia um contrarregra que tencionava todo o andamento da cena. Ele batia palmas, interrompia as emoções e conduzia o espetáculo de forma abrupta.

Eu me achava nos braços de Basílio que me enlaçavam e queimavam. Eu desfalecia, me sentia esvair num elemento quente como o sol e doce como o mel: eu gozava espantosamente e soluçava, comonão aguentando aquela onda de emoção e paixão. Mas entre os soluços, me sentia envergonhada porque Basílio repetia nossos delírios libertinos do Paraíso. Como ele fazia isso? Como expunha nossa intimidade ali, naquele teatro e o que é pior: como eu consentia? A plateia aclamava: Bravooo…. Bis … Bis. Lenços e flores eram atirados ao palco, o Rei erguera-se e as pessoas berravam num misto de dor e glória. Eu estava paralisada e logo o contrarregra ganiu: Agradeçam, agradeçam! Eu me curvei e Basílio estava extasiado com a reação da plateia mas de repente fez-se um silêncio ansioso e trágico. Todo o teatro teve um aaahh! de espanto. Todas as atenções voltaram-se para o pano de fundo do palco onde uma estrutura de jardins era estrelada com rosinhas brancas. Luísa olhou também, magnetizada pela imagem de Jorge que se adiantava vestido de luto, com luvas pretas e um punhal na mão. Seus olhos brilhavam mais que a lâmina da faca e, com passos marmóreos agarrou-lhe os cabelos, curvou-lhe a cabeça para trás, ergueu de modo clássico o punhal e cravou-lhe no peito.

Era mudança de quarto para agradar a criada, compra de móveis e acessórios para o quarto, isso sem contar as inúmeras saídas de Juliana em horários de trabalho. A isca seca agora era “a pobre Juliana”, a coitada, a adoentada. Hoje sei que a perdida me chamava de palerma entre dentes. Falsa e mentirosa, pássaro preto com asas de morcego deixando insalubre qualquer ambiente.

De uma hora para outra comecei a receber currículos de pessoas interessadas em trabalhar em minha residência e não entendia o porquê. Cozinheiros, cocheiros, ajudantes de cozinha, todos enxergavam em minha casa a vaga sedução dum paraíso. Chegava até a pensar que me tomavam por rico.

Sim , todos iam querem trabalhar em minha casa! Uma casa onde uma cabra do inferno, às minhas custas desabrochava sem parar! Roupas brancas, lenços, sachês perfumados, vestidos, tapetes, tudo era dado àquela cobra.

Luísa estava cada vez mais singular. Me parecia que seus dias eram uma amargura plena. Mas mesmo assim Luísa fazia questão de elogiar Juliana em minha frente pelo bom andamento da casa. Luísa parecia esperar que algo se rompesse e finalmente levasse aquele demônio.

E pouco a pouco, Juliana sucumbiu e começou a ser desleixada. Cada vez mais Luísa teve que assumir as tarefas e seu hábito de enfeitar-se foi renegado. Ficava de roupão e chinelo arrastando-se por entre cômodos e me amando, “porque o amava agora, imensamente!”

Jorge um dia chegou e viu a cama desarrumada pois Juliana havia saído. Ficou abismado diante das explicações de Luísa e seu ódio por Juliana inflou-se. Luísa a defendia aos prantos e eu tinha que acalmá-la. E com o passar dos dias a vi cada vez mais triste e cabisbaixa.

Eu estranhava Luísa à noite, pois parecia outra pessoa. Talvez por não ter de ver a cara medonha de Juliana, libertava-se, transformava-se. Naqueles dias era muito difícil digerir todos aqueles acontecimentos.

As febres efêmeras, o emagrecimento e as melancolias de Luísa me torturavam. Parecia que se desprendia de tudo o que era terrestre e que agia como um espírito livre das misérias carnais. E todos me dizendo para me desfazer de Juliana, pois um dia ela teve um ataque e caiu desmaiada na cozinha. Peste agourenta, fez com que eu desviasse o foco de minha atenção que devia ser sempre em Luísa.

“Tens medo dela Luísa? Quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora?” Aquele encosto na sua casa, cada vez mais com os pés na cova, exasperava-o. Era irritante a ridícula bondade de Luísa para com Juliana.

Mas um belo dia Juliana saiu e não serviu o almoço. A insolente voltou e Luísa arranjou forças para repreendê-la. Vi no olhar da ignóbil criada a empáfia. Eu gritei e bati a mão em punho sobre a mesa: “Você não ouviu sua patroa? Fazem -lhe as contas e que se vá! Estou farto, farto. Nem mais um dia, ouviu!

Tripa velha , maldição em forma de criada.

Fotografia Gilson Camargo

Basílio: Oh Luísa, o tempo arrastava-se tão lento até você chegar. Vejo que estás com uma leve transpiração. Já estava impaciente com sua demora e você vem sempre com tanta pressa.
Luísa: Ah querido, você sabe como tenho que estar em casa às cinco, e é uma grande caminhada vir até aqui e depois voltar. E sem contar a vizinhança tão chegada, tão maligna! Mas agora estou aqui! Nem consigo acreditar que posso vê-lo sempre. Chego a ter lágrimas nos olhos ao lembrar de como era piegas e exagerada a minha emoção quando eu tinha 18 anos e ansiava pela sua presença. Mas agora tudo é tão maravilhoso. Nem o mal aspecto desse lugar me incomoda.
Basílio: fico feliz com essa sua observação, porque acho um horror essa cidade ….Huuumm (desejo)… mas como estás linda; vejo suas formas por esse corpete e isso me enche de ideias… Como sempre quis estar só contigo um momento. Vem pousar, ó doce amada, teu peito contra o meu….. (apelativo)
Luísa: Sinto o mesmo magnetismo de quando estávamos em casa e não podíamos fazer nada, em virtude das paredes com ouvidos. Você me olhava com tamanha profundidade que agora, aqui, livre para fazer o que quisermos, só posso afirmar que esse lugar é deveras o Paraíso.
Basílio: Desde o primeiro dia que te tornei a ver estou doido por ti, como antes, a mesma coisa. E quero, diante disso, te ver sempre rica e feliz.
Luísa: Então me leve com você Basílio, em suas viagens para juntos podermos experimentar as doces aventuras do desconhecido. Eu queria tanto conhecer o Brasil, tanto…
Basílio: Nunca, imagine….. Brasil, não te posso levar ao Brasil, era matar-te meu amor! Tu imaginas lá o que aquilo é! Um lugar desnecessário. Mas venha, venha aqui comigo, deixe-me pousar a mão sobre sua testa (falando e fazendo), incline sua cabeça para trás para que eu possa beijar suas pálpebras, a face e depois os lábios profundamente … (acaba beijando)
Luísa (endireitando-se, com pudor) Deixa-me, deixa-me Oh meu Deus é horrível, deixa-me é horrível (dor na consciência).
Basílio: mas como assim Luísa, vieste aqui todos esses dias para cultivar uma amizade de irmãos? E a propósito, teu marido, quando vem? (irônico com a sua conquista)
Luísa: Não recebi carta recentemente, mas a última queixava-se sobre o calor, as más estalagens, saudades e mil beijos. Somente isso….. (ressentida com o desdém de Basílio para com Jorge)
Basílio: Minha filha amada, estou a dizer-te isso pois preocupo-me com sua situação … (falso) ….Sabe que meu tempo por estas paragens tem se esgotado e logo, logo, terei que partir. Estou aqui somente por ti e não te vejo disponível a tudo em relação a mim … (segundas intenções sexuais)
Luísa: Sim, eu sei, e por isso te peço novamente, por favor: leve-me junto daqui. Sou uma mulher de vinte e cinco anos, casada há quatro e que tem plena consciência do que quer e eu quero ir-me com você, seja para onde for.
Basílio: Isso temos que ver com certeza, mas por hora deixe-me dar um beijo em seu braço hein? (provocativo sexual). Se queres tanto percorrer o mundo comigo porque se porta como uma beata? Venha, venha, um beijinho na face….
Luísa (permite a princípio / mas sempre há um misto de querer e não querer): quando estou contigo sinto-me tão feliz, Basílio, mas será que é verdade mesmo (nos braços de Basílio,
encarando-o)
Basílio: e se for verdade, o que você é capaz de fazer?
Luísa: nem eu sei (murmurando e quase chorando)
Basílio (livro: prendendo-a mais fortemente nos braços, beijando-a e dizendo-lhe palavras loucas, sussurros e palavras “vem venha aqui“ mas com enfoque sexual, entredentes, tipo um grunhido, fúria): mas o que você tem hein, você está tão linda, tão atraente …. Ohhh….Oohhhh (subitamente recobrando a lucidez): queres que fujamos então?
Luísa: ah, se fosse fácil, não digas tolices.
Basílio (nervoso): estou a dizer tolices….humpf… sabe Luísa, eu não te entendo, não estou nervoso, mas não te entendo: você vive me pedindo coisas e quando eu resolvo tomar uma atitude você me vem com essa de não dizer tolices….
Luísa (apaixonada): não me leve a mal Basílio, é que fico tão preocupada, eu te amo e as más línguas já começaram a se manifestar . Eu sei que você quer viver junto a mim e é tudo o que mais quero. A sua gloriosa beleza, a sua sedução irresistível (beija-o mais)……
Basílio: Minha pequena, adoro-te (Basílio)……..
Luísa: você é meu deus, Basílio (abraços e beijos furiosos).

(Luísa esfregando o chão, gemendo e sussurrando, sofrimento)
Juliana: Puta! A senhora imaginou que “tais atitudes” iam ficar por isso mesmo? A senhora já sabe que eu guardei as cartas para alguma coisa, portanto, eu preciso do dinheiro e, por mim, pode buscá-lo onde quiser. Estou farta, Farta! (joga Luisa no chão) tenho sofrido muito todos esses anos, levantado cedo e calejado muito, enquanto a senhora só na preguiça, não é mesmo? Mas agora é a minha vez: Chega! (joga Luisa no chão). A senhora só sabe sujar e sujar e sujar, mas é chegado o tempo de limpar, Limpar, ouviu bem?
Luísa (entredentes): Que fiz eu para merecer isto, meu Deus, que fiz?
Juliana: E pare de reclamar imediatamente, pois já parou para reparar em meu quarto? Vivo como um animal e isso tem que mudar! Quem manda agora Sou eu (livro: palmadas no peito).
Luísa: livro: quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob a cólera como um pássaro sob um chuveiro.
Juliana: Seiscentos mil réis, ou seu marido lerá as cartas!
Luísa: Seiscentos mil réis! Onde quer você que eu vá buscar seiscentos mil réis?
Juliana: Ao inferno! (gritou Juliana). Ou me dá seiscentos mil réis, ou tão certo como eu estar aqui, o seu marido há de ler as cartas?
Luísa: Pois bem (livro: Luísa disse, quase num murmúrio), eu lhe arranjarei o dinheiro. Espere uns dias.
Juliana: bem minha senhora, Muito bem e outra coisa: preciso calçar minhas botas e ir ao médico, pois estou atrasada! (livro: disse, muito seca. voltou as costas e saiu)
Luísa: Como isso tudo vai acabar? Mais cedo ou mais tarde, Jorge vai perceber o que está acontecendo. Preciso fugir, ir para um convento, ser criada, apanhar lama…
Juliana (volta da rua, mas já é um outro dia) Eu não estou para aturar o gênio do seu marido, percebe senhora? Ontem eu mesma escutei as suas queixas sobre a camisa amarrotada: “Isto não se
pode vestir, está indecente!” (Irônica, imitando Jorge). Palerma, se quer serviço bem feito que arranje alguém que me ajude.
Luísa: eu a ajudo, Juliana, pode deixar que eu te ajudo (submissa).
Juliana: claro que terá que ser bem assim, senhora! Além do mais preciso dizer-lhe que passe e engome as roupas agora mesmo. Tenho que ir ao médico, ao passeio e à modista para pegar uns vestidos.
Luísa: Você vai sair?
Juliana: vou sair e sair Sempre! (se arrumando, abotoando luvas). Simplesmente, Não posso deixar de sair!
Luísa: mas eu preciso que pelo menos você me ajude a engomar as camisas….
Juliana: Eu vou sair ! Se precisar engomar, engome-as a senhora.
Luísa (descontrolada): Infame!

Fotografia Gilson Camargo

Minha querida Luísa. Seria longo explicar-te que somente agora recebi sua carta e vejo que ela percorreu a Europa pelos carimbos. Como já se vão dois meses e meio que escreveste, imagino que te arranjaste com a criada Juliana e que não precisas mais do dinheiro para ter nossas cartas. De resto, se por acaso ainda precisar da quantia me mande um telegrama e você terá o dinheiro em dois dias.

Vejo pelo tua carta que não acreditaste nunca que minha partida fosse motivada por negócios. És bem injusta por pensar assim! Não acredito que você ache que minha partida tenha lhe tirado todas as ilusões do amor! Isso é injusto pois quando saí de Lisboa que percebi quanto te amava e não há um dia sequer que não me lembre do Paraíso, nosso maravilhoso Paraíso. Que manhãs incríveis, que dias aprazíveis… você tem ido lá visitar nosso ninho de amor?

Infelizmente não tenho mais tempo de escrever, espero ver-te porque sem ti Lisboa é para mim um exílio. Um longo beijo… Basílio.

Fotografia Gilson Camargo

Tanto tempo faz que não o vejo Sebastião… Se alguém foi nobre nessa história esse alguém foi ele. A preocupação com Luísa e a vizinhança, a assistência a ela no momento de maior desespero. A visão clara do problema e a ausência de julgamento.

E que visão prática esse homem tinha! A ele foi cedida a mais pura confissão: Luísa escolheu-o como anjo bom que era e essa escolha era clara: como ela poderia contar o hediondo segredo para seu marido…. Jorge, o marido que havia dito que traição deveria ser paga com morte…. O plano de Sebastião para ajudar Luísa foi tão certeiro….levar um policial para assustar Juliana enquanto estávamos na ópera, foi perfeito.

Que maneiras de encurralar uma fera, que destreza e precisão! Juliana ficou tão chocada ao ser citada por Sebastião ao policial: o desmascarar da bruxa através do pedido direto das cartas roubadas. E como ele foi firme ao segurá-la pelo braço quando a louca quis ir à janela pedir socorro à polícia.

Tão desvairada estava que nem se apercebeu que a polícia já estava em casa. Juliana rosnava diante das acusações de roubo, possuída por uma força de contrariedade. Proferia palavras loucas, misturadas ao nome de Luísa, “bêbada, suja, cabra” e num auge de loucura, batendo com o pé, num frenesi: NÃO! NÃO! NÃO!

Havia três cartas: Meu adorado Basílio; e muito pálido guardou logo tudo no bolso de seu casaco. Dispensou o policial. A louca proferia nomes obscenos e infâmias antigas e não pronunciáveis. Somente um santo para não pular ao pescoço daquele ser doentio. Um santo!

Juliana então alucinada de raiva, com os olhos saídos das órbitas veio para ele, e cuspiu-lhe na cara! Mas de repente, a sua boca abriu-se desmedidamente, fraquejou para trás como que desequilibrada, levou com ânsia as mãos ao coração, e caiu para o lado, com um som mole, como um fardo de roupa. Estendida no chão, com os braços abertos, os dedos retorcidos como garras, a palidez incontestável.

Luísa: Então você ainda não arrumou o quarto? (Gritou)
Juliana: Estava agora a arrumá-lo, minha senhora. (estremecida com a cólera inesperada)
Luísa: Que estava agora vejo eu! São três horas da tarde e ainda o quarto nesse estado!
Juliana: Como a senhora costuma vir sempre mais tarde eu…….
Luísa: Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem você com isso? A sua obrigação é arrumar logo que eu me levantar. E, não querendo, rua, fazem-se-lhe as contas!
Juliana (fez-se escarlate, olhos injetados): Olha, quer saber? Não estou para te aturar! (arremessou violentamente a vassoura)
Luísa: Saia! Saia imediatamente! Nem mais um momento nessa casa!
Juliana (com palmadas convulsivas no peito, voz rouca): Hei de sair se eu quiser! Se eu quiser!
Luísa: chama a empregada Joana (substituir pelo que for melhor) no livro: queria chamar a cozinheira, um homem, um policial, alguém!
Juliana (descomposta, com o punho no ar, trêmula): A senhora não me faça sair de mim! A senhora não me faça perder a cabeça! (e com a voz estrangulada, através dos dentes cerrados): olhe
isso, nem todos os papéis foram para o lixo!
Luísa: Que diz você?
Juliana: Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, Tenho-as eu aqui! (bate no pequeno bolso agregado à roupa ou somente bate no ventre ferozmente).

Luísa olha para Juliana, um momento, com os olhos desvairados, e cai no chão, desmaiada > Luz rosa: Luísa aparece como visão celestial, sob o som de ópera comovente. Luísa caminha para o seu momento final. Momento de luz, sublimação e eternidade. Juliana e Jorge a observam, fascinados pelo brilho espectral e pela beleza fantástica das expressões de Luísa.

FIM.

Fotografia Gilson Camargo

ELENCO:

Luiz Bertazzo
Marcilene Moraes
Marcia Gomez
Henrique Gaio
Jeff Bastos
Fabiano Amorim

Fotografia Gilson Camargo

FICHA TÉCNICA:

Direção artística Fabiano Amorim
Dramaturgia adaptada Fabiano Amorim e Leandro Catapam
Assistência de direção Marcilene Moraes
Direção de produção Marcio Tesserolli e Marcilene Moraes
Equipe de produção Luciano Seidel e João Piontkievicz
Cenografia Henrique Horn
Sonoplastia Cezar Ney Sarti
Operação de som Luciano Seidel
Iluminação Wagner Correa
Operação de luz Luis Santos
Figurino Aline Uberna
Maquiagem Paulo Ferraresi
Preparação vocal Edith de Camargo
Design gráfico Leandro Catapam
Fotografia Gilson Camargo
Assessoria de Imprensa Adriane Perin
Parceria Crisálida Cia de Arte
Realização MKF Produções Artísticas

“Fazei que se convertam aqueles que, por querer ou sem querer, são instrumentos de infelicidade para os outros”.

Oração a São Sebastião

12970555_10208138484487548_944184586_o

Link para documentação fotográfica de Paulo Feitosa, na segunda temporada do espetáculo, no Teatro Cleon Jacques. Junho, 2016.

Em 3 de maio de 2016 por Gilson Camargo

One Response to “O Primo Basílio, de Eça de Queiroz – Direção, Fabiano Amorim”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *