Olhar Comum – Os Limites da Cidade – Curitiba/PR

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Esta publicação teve seu início como um desejo de conhecer melhor a cidade, de construir uma imagem mental de sua arquitetura e desenvolver um sentido de orientação dentro dela. Escolhemos como metodologia, num primeiro passo, a identificação dos limites da cidade, seus pontos extremos segundo a rosa dos ventos. Este passeio poderia fornecer algumas imagens iniciais para a construção de um perfil externo de Curitiba, revelando o contorno do seu rosto, a cidade espelhada em sua vizinhança. Esta referência aos pontos cardeais, em sua abstração, seria o primeiro eixo de pesquisa da cidade como linguagem. O Norte, Sul, Leste e Oeste aplicados à paisagem local. A fala de seus portões. A iconografia personalizada de sua bússola.

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O terraço do Edifício Itatiaia, no Largo Bittencourt, foi a torre de observação que escolhemos como ponto de referência no Centro. Dali pudemos observar o percurso do Sol no contorno dos edifícios e formar uma primeira impressão sobre a distribuição dos núcleos habitacionais mais densos nos bairros, e de sua posição geográfica em relação ao Centro. Este ponto elevado de observação permitiu intuir o percurso necessário para iniciar um mapeamento do desenho externo da cidade.

Qual o aspecto que diferencia Curitiba dos grandes aglomerados arquitetônicos característicos das metrópoles modernas, com as suas densas colunas de edifícios e ruas bem traçadas em planos quadrangulares? Temos como representação da cidade, amplamente divulgada no imaginário coletivo, alguns de seus aparelhos urbanos destacados, como parques, edifícios históricos e avenidas, porém não partilhamos, no repertório comum, de uma noção do perfil geográfico da cidade, de um desenho que nos proporcione um sentido de orientação dentro dela, e que nos forneça uma iconologia topográfica específica.

Qual o rosto que nos determina? Que figura podemos identificar no desenho da cidade? Qual a sua cadeia de montanhas? Quais os órgãos do seu corpo? Que imagem poderia sugerir uma associação com a natureza e revelar o organismo urbano como as grandes construções neolíticas realizadas para o prazer dos Deuses? Como poderíamos conhecer a cidade no seu sentido totêmico, como um templo? Qual é a imagem sinóptica do seu corpo arquitetônico? Qual o perfil que a representa na memória coletiva?

A vida na cidade, a metrópole moderna, transformou radicalmente as relações do homem com o meio ambiente. Já não enxergamos mais o céu. Desconhecemos as estrelas favoráveis ao plantio. A lua e as monções não nos dizem mais respeito. Temos rios e nascentes de água nas torneiras de nossas casas. Desconhecemos a terra que nos acolhe, suas propriedades. O fogo ancestral já nasce domado, com a lenha embutida nos fogões a gás, nos sistemas de calefação, nas lâmpadas fluorescentes e nos chuveiros elétricos. Alimentos de toda a espécie descansam tranquilos como frutas nas ramagens coloridas das prateleiras dos supermercados. Tudo isto a cidade oferece como segunda natureza. Como funciona este organismo antropozoomórfico? Onde sua boca? Onde o ânus? Onde seu membros espalhados pela terra e que papel desempenham na vida da giganta?

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Nascente do Rio Passaúna. Limite Noroeste de Curitiba com os municípios de Campo Magro (à direita) e Almirante Tamandaré.

Os limites ancestrais de Curitiba foram demarcados pelos rios: ao Leste, o encontro do Rio Atuba com o Rio Iguaçu. Ao Sul, o encontro do Rio Iguaçu com o Rio Barigui. A Oeste os Rios Barigui e Passaúna. Ao Norte, o Ribeirão Antônio Rosa e o Arroio Cachoeira com o Rio Atuba. Estes limites antigos da cidade se mantém quase intactos pelas ultimas demarcações. Procuramos os seus pontos exatos com o auxílio de uma bússola e do mapa geopolítico da cidade publicado pelo IPPUC em 2005.

Encontramos nestes lugares uma Curitiba rural, com paisagens bucólicas, ainda no estilo dos primeiros retratistas da cidade, como Debret, Elliot e Keller, apesar da pobreza encontrada em algumas destas regiões e da poluição dos rios circunvizinhos.

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Ao Norte, na colina do Abranches, limite de Curitiba com Almirante Tamandaré, na esquina da Rua 1 com a Rua José Bajerski, um menino de 4 ou 5 anos de idade pediu para ser fotografado. Perguntamos seu nome e ele respondeu, “não sei meu nome, tio!”

norte rua um1aRua José Bajerski. Divisa Norte com o município de Almirante Tamandaré. Ao fundo, parte da região central de Curitiba.

Ao Sul de Curitiba (Sudoeste) está o Aterro Sanitário da Caximba, porção final do aparelho digestivo da cidade. Pelo pequeno vilarejo circulam diariamente centenas de caminhões de lixo. Lugar de extrema beleza, o bairro da Caximba contém a maior concentração de urubus da cidade, agente ambiental importantíssimo na digestão do lixo orgânico e do seu retorno ao meio ambiente. O cheiro do chorume ainda é uma questão a ser resolvida pelos projetos de reciclagem no destino final dos resíduos sólidos. Mais ao Sul, no limite extremo da cidade, frente aos portões de uma propriedade particular, crianças posam para a foto segurando armas de brinquedo.

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A Leste se concentram as nascentes dos rios e os grandes mananciais de água de Curitiba. É também o caminho que leva à Serra do Mar e as praias. Ali, para a nossa surpresa, nas cavas do Iguaçu, ainda se pesca!

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Curitiba vista da divisa Leste, a partir do município de São José dos Pinhais.

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Ponte sobre o Rio Passaúna, na divisa de Curitiba com Campo Largo.

A Oeste está a represa do Passaúna, no caminho que leva ao interior do estado. No limite do municipio de Campo Largo com a BR-277, num pequeno recanto embaixo da ponte do Rio Passaúna, lê-se a seguinte inscrição: EUSODEZETCORTAEMHEINAUMEIDEMVES

Esta identidade Curitiba não perdeu, encontramos Araucárias em cada um de seus quatro cantos.

Octavio Camargo
Maio, 2006

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Vista do Centro de Curitiba a partir da Praça das Nações, no bairro Alto da XV – Leste.

Commom View – The Limits of the City

This publication has its origin in a desire to know the city better, to build a mental image of its architecture and to develop a more accurate sense of direction in it. We chose as a method, in a first approach, the identification of the limits of the city, its extreme sites according to the cardinal coordenates in the map. This adventure could provide the inicial images to design the external face of the city, to have a grasp of its expression, the general lines of its contour, the city mirrored through its neighbourhood. This reference to the system of coordenates, as an abstraction, was taken as a first axle in the research of the city as language. The speech of its gates. The specific iconography of its compass.

The terrace of the Itatiaia Building, in the centre of the city, at Largo Bittencourt (which is also the home of the photographer), was chosen as a tower of observation. From this place we could follow the movement of the sun in the horizon of the city and have a first impression about the most inhabited regions in the suburbs and their position in relation to the centre. From this elevated site of viewing we planned the initial route of navigation to map the limits of the city.

Which aspect can differentiate Curitiba from the huge gatherings of buildings that are typical of the modern metropolis, with their dense vertical collums and well traced avenues in a square plan? We have as a representation of the city, thoroughly remembered in the collective imagination, some of its famous urban equipments, as leisure parks, historical buildings and avenues, but we do not share, in the common local repertoire, a notion of the geographical contour of the city, or a figure that could provide a sense of direction in it, with a specific topographical iconology.

What face can we identify in the design of the city? Which is its chain of mountains? Which are the organs of its body? Which image could indicate an assotiation with nature and reveal the urban organism as the huge neolitic contructions built in honor of the gods? How could we know the city in its totemic aspect, as a temple? Which is the synoptic view of its architectural body? Which image can represent it to the collective memory?

The life in the city, in a modern metropolis, has profoundly changed the relations between man and nature. We can not see the nightsky anymore. We do not identify the stars that favour planting. The moon and the tides do not refer to us immediately. We have rivers and water fonts in the sink of the kitchen. We do not know the gifts of the land. The ancestral fire comes dominated in the gas stoves with embbeded wood in the warming systems of the houses, in the fluorescent lamps, in the electrical showers. Food of varied type can be found resting like fruits in the colored branches of the shelves in the supermarkets. All these things are offered by the city as a second nature. How does this animal like organism functions? Where the mouth? Where the anus? Where its members spread in the space and which is their rule in the life of the giant?

The ancient limits of Curitiba where established by rivers. In the east, the meeting point of the Atuba with the Iguaçu. In the South, the encounter of the Iguaçu with the Barigui. In the west the rivers Barigui and Passauna. In the North, the Ribeirão Antonio Rosa and the Arroio Cachoeira. This old limits of the city were almost unaltered by the recent demarcations. We have searched for their exact location with the aid of a compass and the geopolitical map of the city published by IPPUC in 2005
We found in those places a rural view of Curitiba, with bucolic images in the style of the first painted reports of the city from Debret, Elliot and Keller, despite poverty in some of these regions and the pollution of the surrounding rivers.

In the North, the most elevated cliff of the suburb of Abranches is in the corner of Rua 1 and Rua José Bajerski. (There, in the closest spot to the limit of Curitiba and Almirante Tamandaré, a child of 4 or 5 years of age wanted to be photographed. We asked his name and the boy answered – I don`t know my name, sir!)

In the south of Curitiba (south west) we can find the Sanitary field of Caximba. It is the last portion of the digestive system of the city. Trough this suburb, in the day, we see thousand of garbage trucks circulating. It is a place of rare beauty. There we find the largest population of vultures (urubus) in the city. They are an important environmental agent in the digestion of organic waste. The smell of garbage is still a factor to be resolved by the city and by its system of final destination of the solid residues. (More to the south, in the limit of the city, in front of a private property, some children posed to be photographed holding toy guns.)

In the east we find the origin of the rivers that converge to the Iguaçu. It is the way that leads to the Serra do Mar, and then, to the shore. (There, for our surprise, we found people fishing!)

In the west, we find the Passauna River. One third of the water supplies of the city comes from there. It is in the way that leads to the countryside of the State. (In the limit of the city of Curitiba and Campo Largo, in a small resting place, under the bridge that passes over the River Passauna, we found the following inscription: EUSODEZETCORTAEMHEINAUMEIDEMVES

This identity Curitiba hasn`t lost. We found Araucarias in each of its four corners.

Octavio Camargo
May, 2006

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Região central de Curitiba vista do Bairro Alto – Leste.

DSC_4867Curitiba, vista do município de Pinhais – Leste.

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Vista de Curitiba a partir do Cemitério Paroquial do bairro Abranches – Norte.

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Cruz das Almas, no Cemitério Municipal de Curitiba.

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Vista de Curitiba a partir da pedreira Paulo Leminski, no bairro Pilarzinho – Norte.

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Vista de Curitiba a partir da BR 277 – Oeste.

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Vista de Curitiba a partir da Vila São Pedro, na Cidade Industrial – Oeste.

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Bairros do Mossunguê e Campo Comprido (Ecoville) a partir do bairro Santo Inácio.

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Lago da represa do Rio Passaúna. Limite Oeste de Curitiba (à esquerda) com o município de Campo Largo (à direita).

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Lago da represa do Rio Passaúna. Divisa Oeste de Curitiba com os municípios de Campo Largo e Araucária.

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Vista de Curitiba a partir da FIEP, no bairro Jardim Botânico – Sudeste.

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Vista de Curitiba a partir do bairro Guabirotuba – Sudeste.

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Vista de Curitiba a partir do bairro Guabirotuba – Sudeste.

20 sul campos de santana5Campos de Santana. Bairro da região Sul de Curitiba.

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Campos de Santana. Bairro da região Sul de Curitiba.

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Vista do bairro Caximba, em primeiro plano. Ao fundo, as cavas do Rio Iguaçu e o município de Fazenda Rio Grande. Divisa Sul de Curitiba.

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Aterro sanitário da Caximba – Sul.

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Margens do Rio Barigui, divisa de Curitiba com Araucária – Sudoeste.

Imagens da montagem da exposição no Espaço Cultural Beto Batata, em Curitiba, em maio de 2006.

Em 12 de junho de 2006 por Gilson Camargo

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