Quiçá – Exposição individual de Hugo Mendes – Galeria Ybakatu

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Já não era sem tempo – o trabalho de Hugo Mendes.

Acompanho o trabalho do artista Hugo Mendes há mais ou menos dez anos. Durante esses anos, entre faculdade, conversas e exposições, tive a oportunidade de observá-lo trabalhando no ateliê algumas vezes. Nos anos do curso de Artes Visuais, que ambos fizemos na Universidade Tuiuti do Paraná, em Curitiba, Hugo era o aluno responsável pelo ateliê de gravura, e eu pelo de fotografia. Eu, no primeiro ano do curso, e Hugo já no último ano. Lembro de me interessar pelas técnicas da gravura, por seus procedimentos, de passar as tardes no ateliê conversando sobre arte e observar Hugo trabalhar num projeto novo. Ali, durante o período de algumas semanas, acompanhei a impressão sete mil gravuras de uma mesma imagem, parte de um trabalho que não lembro de ter sido concretizado. A gravura é uma técnica que exige rigor no cumprimento de seus procedimentos, e Hugo era um “máquina” de fazer gravuras. A tinta era posta no balcão de pedra à esquerda, os materiais e as matrizes estavam à direita, posicionados em série, o que permitia ao artista padronizar seus movimentos como uma máquina: passar o rolo na tinta, na matriz, na tinta, na matriz, repetidamente, até todas estarem entintadas. Após isso, as matrizes eram todas encaixadas no papel, levadas à prensa, e finalmente impressas. Repetidas vezes e com movimentos iguais. Concentrado. Como se seu esforço estivesse impresso ali naquelas gravuras.

Hoje em dia, Hugo Mendes dedica-se muito mais à escultura do que à gravura, mas seu processo de trabalho continua buscando referências no mundo industrial, como se suas mãos fossem parte de uma máquina que produz, contraditoriamente, objetos únicos, objetos que dificilmente terão um equivalente, ou cópia, seja pela madeira utilizada ou pela própria falha humana em repetir o mesmo movimento precisamente como uma máquina. Seu trabalho, feito sempre artesanalmente, não transparece tal artesania; suas esculturas beiram o industrial pelo acabamento, polidez, formas precisamente encaixadas e apresentação impecável. Hugo diz que isso acaba por seduzir o espectador e atraí-lo para que então atente-se aos outros aspectos do trabalho.

A exposição “Quiçá” traz obras produzidas ao longo de 2016, que podemos separar em dois conjuntos. O primeiro grupo é composto por obras construídas a partir da apropriação de fragmentos, com técnicas que escondem seus processos de feitura, apesar da manufatura manual, repetitiva, com materiais industriais e superfícies polidas resultando num perfeccionismo invejável. O segundo, com objetos esculpidos em material exposto, ao natural, ou com menor controle da manufatura, como a palha e o adobe. Para cada objeto que vemos nessa exposição, Hugo Mendes começa pelo desenho, não como projeto, mas para dar vazão àquela imagem que lhe salta à mente. É como se através do desenho Hugo conversasse melhor com essas formas.

Das obras do primeiro grupo, chamo a atenção para As três sombras. Uma escultura feita da repetição de uma mesma forma, um cone circular reto, na cor preta, que justapostas, formam um semicírculo. O título se refere à escultura homônima de Auguste Rodin, parte de sua grande obra a Porta do Inferno, inspirada na Divina Comédia de Dante Alighieri. Na obra de Rodin, uma mesma figura humana é repetida três vezes e parece girar ao redor de um mesmo ponto. Para Rosalind Krauss, a repetição crua em Rodin subverte o caráter narrativo e a ideia de composição (arranjo rítmico das formas), torna explícito o processo de repetição de sua criação, o que a historiadora define como uma paródia da tradição de agrupar figuras tríplices na escultura. Sabendo disso, Hugo Mendes, ao apresentar o mesmo jogo de repetição em As três sombras, provoca, ao mesmo tempo, uma ilusão de ótica de profundidade, pelo encaixe dos três cones, e desmonta qualquer narrativa não autorreferente. Aqui, reconhece-se um denso diálogo com a escultura moderna, sublinhando sua capacidade de síntese, aproximação e distanciamento da própria história da arte.

Entre o que chamo de segundo grupo, me vem a mente como um profundo amadurecimento de sua pesquisa Infinito circular ou rola-bosta, obra composta por duas esferas e uma base de madeira. O título é o nome de um besouro que tem como hábito, para reproduzir-se, enrolar suas larvas em excrementos de outros animais, que também são seu alimento, e transportá-los até um lugar seguro, numa incrível habilidade de manter sua prole em segurança. A escultura é feita de uma esfera em cerâmica, coberta de tinta poliéster de cor nacarada, que se apoia sobre outra, feita de adobe, mistura de terra, água e palha, um dos mais antigos materiais da construção civil. Além da semelhança com o próprio besouro que dá nome à escultura, nesse, diferentemente dos trabalhos mais antigos, somam-se outros campos do conhecimento aos diálogos com a história da arte. Incorporar a base ao trabalho certamente nos lembra o escultor Brancusi. Infinito circular sugere tanto o hábito do besouro rolar a bosta para criar e alimentar sua prole, os ciclos da vida, como o abrigo, a casa, como se ali se abrigasse e protegesse um bem precioso. Inicio e fim em um único objeto.

No processo de produção, entre o começo e o termino de cada escultura, tantas outras se misturam. Pelo longo tempo que cada peça demanda, quando um trabalho termina, outros três estão engatilhados, em processo ou em projeto. O contágio entre os trabalhos é inevitável e aponta para novos caminhos. Enquanto novas narrativas somam-se ao trabalho, as obras aqui apresentadas quiçá representam um grande momento de mudança na carreira do artista.

Ana Rocha, dezembro 2016.

Abatida, 2016
Imbuia, metal e corda de sisal
130 x 20 x 16cm

Una, 2016
Fibra de vidro, tinta poliéster e verniz poliuretano
67 X 67 X 49cm
Ed. 1/3

Empenada (anticlástica), 2015-16
Imbuia e verniz poliuretano
17 x 57 x 37cm

As três sombras, 2016
Fibra de vidro, tinta poliéster e verniz poliuretano
48 x 80 x 30cm
Ed.: 1/3

Sem Título, 2016
Imbuia, laca, nitrocelulose e verniz poliuretano
98 x 46 x 33cm

Infinito circular ou Rola-bosta, 2016
Cerâmica, tinta poliéster, verniz poliuretano, imbuia e adobe
35 x 23 x 23cm

Todatribotavaqui, 2016
Piaçava, pau-ferro, verniz poliuretano e fibra de vidro
63 x 38 x 24cm

Bichos I, II, III, IV, V e VI – 2016
Imbuia
Tamanhos variados

Sem Título, 2015-16
Madeira de imbuia, fibra de vidro, laca, nitrocelulose e verniz poliuretano
98 x 46 x 33cm

Aeróstato, 2014-16
Roxinho, caixeta e verniz poliuretano
22 x 52 x 22

Sem Título, 2016
Resina, laca nitrocelulose e verniz poliuretano
Medidas variáveis

Sem Título, 2016
Imbuia e bronze
50 x 45 x 23cm

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Sem Título, 2016
Cerâmica, laca, nitrocelulose e verniz poliuretano
21 x 16 x 16cm
1/3 + P.A.

It’s about time – The work of Hugo Mendes.

I have been accompanying the work of the artist Hugo Mendes for about ten years. During this time, between college, conversations and exhibitions, I have also had the opportunity to observe him working in the studio a few times. In the years of the B.A. in Visual Arts, which we both did at the Tuiuti University of Paraná, in Curitiba, Hugo was the student responsible for the engraving studio, and I was by photography. Me, in the first year, and Hugo already in the last year. I remember being interested in the techniques of engraving, its procedures, spending afternoons in the studio talking about art and watching Hugo work on a new projects. There, during a period of a few weeks, I witnessed the printing of seven thousand pictures of the same image, part of a work that I do not remember having been realized. The engraving is a technique that requires rigor in the fulfillment of its procedures, and Hugo was a “machine” when it came to making engravings. The ink was placed on the stone balcony on the left, the materials and the dies were on the right, positioned in series, which allowed the artist to standardize his movements as a machine: to pass the roller in ink, matrix, ink, matrix repeatedly until all had been inked. After that, the matrices were all embedded in the paper, taken to the press, and finally printed. Repeatedly and with equal movement. Focused. As if his effort were printed there on those prints.

Nowadays, Hugo Mendes dedicates himself much more to sculpture than to engraving, but his work process continues to seek references in the industrial world, as if his hands were part of a machine that produces, contradictorily, unique objects, that hardly will have an equivalent, or copy, either by the wood used or by the human failure to repeat the same movement as precisely as a machine. His work, always handmade, does not show such craftsmanship; His sculptures border the industrial via the finish, politeness, precisely shaped shapes and impeccable presentation. Hugo says that this ends up seducing the viewer and attracting him so that he then looks at the other aspects of the work.

The exhibition “Quiçá” brings works produced throughout 2016, which we can separate into two sets. The first group consists of works built from the appropriation of fragments, with techniques that hide the processes of their production, despite the manual, repetitive manufacture with industrial materials and polished surfaces resulting in an enviable perfection. The second, with objects sculpted in exposed material, natural, or with less control over the manufacture, such as straw and adobe. For each object we see in this exhibition, Hugo Mendes begins with drawing, not as a project, but to give vent to that image that pops into his mind. It is as if through the drawing Hugo converses better with these forms.

From the works of the first group, I call attention to The Three Shadows. A sculpture made of the same shape, a straight circular cone, in black color, which juxtaposed, form a semicircle. The title refers to the homonymous sculpture of Auguste Rodin, part of his great work the Door of Hell, inspired by the Divine Comedy of Dante Alighieri. In Rodin’s work, the same human figure is repeated three times and seems to rotate around the same point. For Rosalind Krauss, the crude repetition in Rodin subverts the narrative character and the idea of composition (rhythmic arrangement of forms), makes explicit the process of repetition of his creation, which the historian defines as a parody of the tradition of grouping triple figures in the classical sculpture. Knowing this, Hugo Mendes, in presenting the same strategy of repetition in The Three Shadows, simultaneously provokes an illusion of optic depth by the fitting of the three cones, and dismantles any nonreferential narrative. Here, we recognize a dense dialogue with modern sculpture, emphasizing his capacity for synthesis, rapprochement and detachment from the history of art itself.

Among what I call the second group, what comes to mind is a deep ripening of his research; “Infinite circular or dung-roll”, a work composed of two spheres and a base of wood. The title is the name of a beetle whose habit is to reproduce itself, to wrap its larvae in the excrement of other animals, which are also its food, and to transport them to a safe place, with an incredible ability to keep the offspring safe. The sculpture is made of a ceramic sphere, covered in pearly-colored polyester paint, which rests on another, made of adobe, a mixture of earth, water and straw, one of the oldest building materials. In addition to the resemblance to the beetle that gives its name to the sculpture, unlike the older works, other fields of knowledge are added to the dialogues with the history of art. Incorporating the base into the work certainly reminds us of the sculptor Brancusi. “Infinite circular” suggests both the habit of the beetle to roll the shit to create and feed its offspring, the cycles of life, as the shelter, the house, as if sheltering there and protecting a precious possession. Start and end in a single object.

In the production process, between the beginning and the end of each sculpture, so many others blend. For the long time each piece demands, when one artwork ends, three more are engaged, in process or in design. The contagion among the works is inevitable and points to new paths. While new narratives add to the work, the works presented here perhaps represent a great moment of change in the artist’s career.

Ana Rocha, 2016 (Tradução: Edward Matkin)

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Hugo Mendes (Curitiba/PR, 1981) é licenciado em Artes Visuais com ênfase em computação pela UTP / 2006, Curitiba-PR; Pós-graduado em Ensino das Artes Visuais: práticas pedagógicas e linguagens contemporâneas pela UTP / 2011, Curitiba-PR; Professor das faculdades de Artes Visuais, Arquitetura e Urbanismo e Fotografia da Universidade Tuiuti do Paraná desde 2012.

Link para o catálogo da exposição no issuu

Visitação de segunda a sexta, das 10h às 12h30 e das 13h30 às 17h. Até 10/02/17.

Galeria Ybakatu
Rua Francisco Rocha, 62 Lj. 06 Batel – Curitiba/PR
Tel: +55 41 3264 4752 | Skype: Ybakatu
www.ybakatu.com | ybakatu@ybakatu.com.br

Em 15 de dezembro de 2016 por Gilson Camargo

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